Um porto gigantesco, financiado pela China, poderia levar a Floresta Amazônica ao colapso.

 Um porto de águas profundas de US$ 3,6 bilhões, inaugurado no ano passado em Chancay, Peru, e controlado pela gigante chinesa COSCO, está no centro de um alerta global.


Reportagem investigativa do Inside Climate News revela que a infraestrutura, a mais avançada da América do Sul, não é apenas um projeto logístico. Ela funciona como um ímã e uma fechadura, atraindo e tornando financeiramente viáveis estradas, ferrovias e hidrovias que podem ser o empurrão final para levar a Floresta Amazônica a um ponto de colapso irreversível.

A Engrenagem Perfeita: Porto + Andes + Amazônia

A lógica é implacável e envolve três atores geográficos:

  1. O Porto (Chancay, Peru): Controlado em 60% pela estatal chinesa COSCO, é o único porto na costa oeste da América do Sul capaz de receber os maiores navios cargueiros do mundo. Ele corta em mais de 10 dias o tempo de viagem para a Ásia, criando um "atalho" trans-Pacífico.

  2. A Barreira (Os Andes): A cordilheira, que corre ao longo da costa, sempre foi um obstáculo intransponível e caro para escoar commodities do interior do continente.

  3. A Recompensa (A Amazônia): Do outro lado dos Andes está a maior floresta tropical do mundo, uma mina de soja, minério de ferro, carne, madeira e ouro cobiçados pela China.

O porto de Chancay, sozinho, não destrói nada. Seu perigo está em criar o incentivo econômico final para que governos e empresas finalmente superem a barreira dos Andes com novas infraestruturas, abrindo as últimas grandes áreas intactas da Amazônia para exploração em escala industrial.

Os Projetos que o Porto Atrai

A reportagem destaca que o "ímã" de Chancay já está puxando planos concretos:

  • A Ferrovia Transcontinental China-Brasil: Em julho de 2024, os dois países anunciaram um estudo de viabilidade para uma ferrovia de 5.000 km, do Atlântico brasileiro direto a Chancay, com financiamento chinês de US$ 50 bilhões.

  • O Asfaltamento da Rodovia Cruzeiro do Sul-Pucallpa: Uma estrada de 700 km que cortaria uma das regiões mais biodiversas e intocadas da Amazônia, habitat de tribos isoladas, conectando o oeste do Brasil ao porto peruano.

  • O "Revolution" Brasileiro: O governo Lula anunciou planos para cinco novos corredores de exportação através da Amazônia até o Pacífico, parte de um megaprojeto com 65 rodovias e 9 ferrovias.

A Ciência do "Ponto de Ruptura" (Tipping Point)

Cientistas alertam que a Amazônia já perdeu cerca de 20% de sua cobertura original. Estudos indicam que entre 20% e 25% de desmatamento pode ser o limite após o qual a floresta perde sua capacidade de se autorregular, iniciando um processo de "savanização". Neste cenário, a floresta úmida dá lugar a um ecossistema seco e aberto, liberando bilhões de toneladas de carbono armazenado e alterando para sempre os padrões de chuva do continente e do planeta.

As novas infraestruturas catalisadas por Chancay poderiam acelerar o desmatamento além deste ponto crítico.

A Receita para o Desastre: Fraqueza Institucional + Interesse Chinês

A reportagem expõe como o projeto prosperou em um ambiente de fragilidade democrática e legal:

  • Falta de Fiscalização no Peru: O Estudo de Impacto Ambiental do porto foi aprovado de forma "irregular", com participação pública mínima e críticas técnicas ignoradas. Empresas podem escolher e pressionar as consultorias que fazem as avaliações ambientais.

  • Corrupção e Instabilidade Política: O Peru teve sete presidentes na última década, muitos envolvidos em escândalos. Um novo lei aprovada em 2024 dificulta que grupos da sociedade civil processem o governo por violações ambientais.

  • Política Chinesa de "Não Interferência": A China oficialmente não interfere nas leis locais. Na prática, isso significa que seus investimentos fluem para países com governos fracos e padrões ambientais baixos, como Peru e Brasil, onde "é o happy hour da corrupção", segundo um pesquisador.

  • Conflito Local em Chancay: Moradores relatam que o projeto dividiu a comunidade, com explosões diárias que racharam casas, poluição que afastou a vida marinha e pagamentos a associações de pescadores para silenciar protestos. A cidade foi cercada por um muro, e a inauguração foi fortemente vigiada pela polícia.

O Vácuo Geopolítico

A reportagem contextualiza que a China está preenchendo um vácuo de influência deixado pelos EUA na América do Sul. Enquanto políticas americanas recentes geraram ressentimento, a China oferece bilhões em investimentos sem questionar governos locais, mudando lealdades em um continente que os EUA historicamente consideram seu "quintal".

Conclusão: Um Dilema Existencial

O porto de Chancay coloca um dilema existencial para a região e o planeta:

  • Para Defensores: É a chance de desenvolvimento econômico, empregos e integração global para o Peru e o Brasil.

  • Para Cientistas e Ambientalistas: É o projeto que pode destravar a derrubada final da Amazônia, com consequências climáticas globais catastróficas.

A pergunta que fica, conforme um morador de Chancay resumiu, é: o progresso virá "sem pisar no meio ambiente"? A reportagem sugere que, no ritmo atual e com os incentivos criados, a resposta tende a ser negativa.


Fonte Principal:

  • Inside Climate News: Reportagem investigativa extensa "A massive Chinese-backed port could push the Amazon rainforest over the edge", com reportagem local no Peru, entrevistas com cientistas, moradores, ativistas e análise geopolítica.

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